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NOTA: Caso São Judas Tadeu/Butiazinho

O TETO Brasil aguarda uma resolução ao caso das cinco famílias desabrigadas em São Judas Tadeu/Butiazinho, em São José dos Pinhais, no Paraná.


No dia 13 de julho daríamos início a substituição de sete moradias precárias pela moradia de emergência no local, mas na noite anterior fomos informados de que o município optou por mobilizar esforços para a não continuidade da ação.


É importante ressaltar que, como sempre, a construção de Moradias de Emergência do TETO acontece estritamente pela substituição da moradia anterior, sem expandir o local ou interferir no impacto urbano de quem ali já estava instalado. Isto foi argumentado, pois optamos pelo diálogo para seguirmos com o nosso compromisso com as famílias, porém, o município manteve a posição e, por isso, acatamos a decisão.


De acordo com os nossos procedimentos normais, os moradores/as já haviam desmontado toda ou parte de suas moradias justamente para iniciarmos a construção às seis horas da manhã do dia 13. Mas, infelizmente, o que se seguiu após o cancelamento da ação do TETO foi de extrema falta de sensibilidade com as famílias envolvidas na ação. Ainda no sábado, órgãos do município não só proibiram as famílias de reconstruírem suas moradias exatamente como elas estavam antes, como também apreenderam seus materiais para impedi-las de reconstruir posteriormente.


Aguardamos que o município encontre uma solução para estas pessoas ou, ao menos, autorize que elas reconstruam suas humildes moradias que já existiam anteriormente.


Seguimos abertos ao diálogo com o município, para apresentar a seriedade de nosso trabalho e nosso compromisso com as famílias com quem trabalhamos. Os moradores esperam por anos soluções, vivendo em condições de vulnerabilidade e risco, e é por isso que trabalhamos com o Programa de Moradia de Emergência, algo que garante temporariamente o mínimo de dignidade para quem vive em situação de pobreza.

Nota de indignação: Operação na Vila Beira Mar

Ontem fez uma semana da operação policial em Vila Beira Mar, uma das comunidades com as quais trabalhamos no Rio de Janeiro, que terminou com 3 pessoas mortas e 3 feridas. 

Dentre elas, 2 crianças foram atingidas enquanto iam para a escola. Elas estudam em Vila Beira Mar por não terem vaga na escola em Parque das Missões, comunidade onde moram. Letícia, de 9 anos, que foi atingida no tórax, passou por cirurgia e está em estado grave. Cristiano, seu primo de 6 anos, foi atingido na mão e teve que amputar um dedo, e está traumatizado pelo que vivenciou. Maurício, jovem de 23 anos, vendedor de café, foi atingido na barriga enquanto trabalhava e terá seus próximos meses comprometidos por conta disso.

Trabalhamos junto a essa pessoas em seus territórios, pois as queremos vivas e em plenas condições de desenvolverem suas capacidades, seus sonhos e projetos, individuais e coletivos. Atuamos para que tenham seus direitos básicos atendidos. Nosso foco é contribuir com soluções de moradia e infraestrutura; mas nada grita mais alto, e é mais primordial, que o DIREITO À VIDA

Nos somamos às vozes que exigem que seja feita a apuração dos fatos e tomada as devidas providências.

Continuaremos trabalhando junto aos moradores/as dessas e outras comunidades que seguem resistindo e lutando diariamente.

Nossa solidariedade aos familiares. 

Campanha Embaixadores garante a construção de mais de 150 casas!

O quarto ano da campanha Embaixadores foi um sucesso! Mais uma vez, este crowdfunding comprova a força da rede do voluntariado do TETO. Foram 36 campanhas movidas por mais de 40 Embaixadores de todo o Brasil.

Graças aos esforços em conjunto e a mobilização destes voluntários e voluntárias, arrecadamos um total de R$ 638.753,00! Deste montante, R$118.716,12 foram captados de forma offline, através de doações diretas, vendas e eventos de arrecadação. Os outros R$520.036,96 foram captados via crowdfunding, por meio de doações de 2.864 benfeitores!

Com este valor, garantimos que a construção de moradias emergenciais acontecerá nos cinco estados onde atuamos, e que mais de 150 famílias terão uma moradia mais digna para viver. 

As construções de julho, também conhecidas como TDI, acontecem nas seguintes datas: 

  • 6 e 7 de julho – Bahia 
  • 6 a 9 de julho – São Paulo
  • 13 e 14 de julho – Paraná
  • 20 a 25 de julho – Rio de Janeiro 
  • 3 e 4 de agosto – Minas Gerais

Fique ligado nos eventos de nossa página no Facebook e se inscreva! 

Uma sede para chamar de nossa: Projeto é concluído na Porto de Areia

A comunidade Porto de Areia, localizada em Carapicuíba-SP, inaugurou no dia 24 de março, junto com o TETO, sua nova sede comunitária. A construção, iniciada  no dia 16 de fevereiro, realizada durante os fins de semana e concluída em março,  agregou em torno da causa, voluntários do TETO e moradores da comunidade. Trata-se de uma grande conquista para todos os mor++adores, visto que era uma necessidade há muito levantada por eles, já que antes havia somente um barracão. Agora a ideia é que, além de sede, funcione não apenas escolinha de reforço para as crianças, aos sábados, mas também como um espaço para que elas possam brincar.

Cada morador ajudou no processo da construção, desde o desmontar  do barracão até a pintura da sede já pronta, aparecendo sempre que podiam ou que surgisse a necessidade. Antônio Justino, 37, por exemplo, é eletricista e trabalha o dia todo de segunda à sábado, mas no domingo estava lá para ajudar os amigos a levantar a sede. Isso é importante para que cada um sinta que se trata verdadeiramente de um espaço de todos. Antônio tem 3 filhas e quer que elas passem a frequentar o local, principalmente para brincar e interagir com outras crianças. “Isso aqui pra gente hoje é um sonho que se realiza, tava bem deteriorado o negócio aqui. O empenho do pessoal da comunidade e do TETO é que motiva a gente, sabe?”.

A importância da sede comunitária é que ela atua como a alma de uma comunidade, sediando as reuniões dos moradores. É um local importante de união de todos em prol de um bem-estar coletivo. O espaço é da comunidade como um todo mas também de cada um, assim se o morador quiser fazer uma festa infantil, por exemplo, é só agendar com a liderança comunitária que organiza e comanda o espaço.

Uma das definições da palavra “comunidade” no dicionário é “concordância, conceito, harmonia”.  E é nisso que acredita Seu Luís Oliveira, 69 anos. Olhando orgulhoso para a construção acontecendo na sua frente, conta que é morador da Porto de Areia e ajudou a desmontar o barracão que existia anteriormente. Ele defende a sede comunitária como algo essencial para todos os moradores: “eu tô ajudando porque eu faço parte da comunidade. Isso aqui pra nóis é ótimo por causa das crianças. Todo sábado o Seu Sérgio vem dá aula aqui pras crianças. As crianças vão para escola de segunda à sexta e no sábado vêm fazer o reforço aqui. E toda reunião da gente vai ser aí também.”

Nessa nova fase da Porto de Areia, mais união é o que espera uma das líderes comunitárias, Renata Borges, 34, que defende a sede como um lugar multifuncional e a base para que tudo funcione na comunidade. Ela, como toda boa líder, além de argumentar que é preciso pensar sempre no coletivo, principalmente no melhor para as crianças, apresentou a página da comunidade que ajudou a criar no Facebook e contou dos planos para a sede. “A gente vai ter uns cursos aqui, temos voluntários, temos quem vai dá aula de cabeleireiro, culinária e violão. Violão é bom pra tirar um pouco as crianças da rua né? Temos o Projeto Arte na Lata, também tá lá tudo no face.”.  

Bruna Sato, 27, coordenadora EDC (Equipe de Comunidade do TETO) fixa da comunidade Porto de Areia, espera que com essa nova sede uma semente seja plantada em cada morador e cada um se sinta responsável pelo cuidado e segurança da mesma.. “O Seu Fernando (morador da comunidade) varre e arruma a escolinha todo sábado para as crianças. Mas agora que a gente tem uma sede segura, a gente pode pensar numa biblioteca melhor, sabe?”, afirma. Tal esperança não é em vão, já que a comunidade antes tinha um lixão localizado entre as casas, responsável por um surto de doença nas crianças, mas o TETO juntamente com os moradores se mobilizaram para tirar o lixo dali e quando o espaço foi limpo todos começaram a zelar por ele. “Cresceu dentro de cada morador ali uma vontade de construir, o espaço nunca mais encheu de lixo.”, diz Bruna.

Cleide, líder comunitária na Porto de Areia, e as cadeiras que serão usadas para atividades com as crianças das comunidades.

O TETO não existe sem seu voluntariado. Essa construção deve muito à EDC, em especial às coordenadoras da equipe de Porto de Areia, Bruna e Mari, que mobilizaram toda uma equipe de voluntários e moradores para que a sede se tornasse uma realidade.. Esperamos que essa inauguração seja um marco de mudanças positivas não só para nossa ONG mas também para os moradores de Porto De Areia.

De lixão à canteiro: a mobilização dos moradores da Che Guevara

De lixão à canteiro: a mobilização dos moradores da Che Guevara

No ano de 2018, o descarte de lixo em vários pontos da comunidade passou a incomodar moradoras e moradores da Che Guevara, em Dias D´Avila, Bahia. O problema foi elencado pela comunidade como um dos 6 mais graves e, a partir daí, foi traçado um Plano de Ação para mudar esta realidade.

A ideia inicial era promover uma campanha ampla de educação ambiental e parte da campanha envolveria transformar em canteiros os pontos onde o lixo era acumulado indevidamente.

Ao longo do ano de 2018, a Mesa de Trabalho (equipe de moradorxs e voluntárixs à frente dos projetos) fez registros dos locais mais críticos e concentrou esforços na identificação de parcerias que pudessem auxiliar neste trabalho. Estas parcerias, contudo, não foram viabilizadas e a Mesa de Trabalho decidiu partir para a ação com os recursos disponíveis.

Nega e Netinha, moradoras e participantes ativas da MT, já estavam arrecadando pneus velhos e cultivando as mudas que seriam plantadas nos novos jardins e a MT estabeleceu como meta iniciar os trabalhos de 2019 priorizando esta ação.

Ao longo dos meses de janeiro, fevereiro e março, voluntárixs e moradorxs se reuniram em mutirão para entregar os 2 primeiros canteiros, localizados na entrada da comunidade. Foi desafiador mobilizar xs moradorxs para a execução do projeto, mas apesar de apenas uma pequena parcela delxs ter arregaçado as mangas e encarado vários domingos debaixo de sol, foi extremamente emocionante e recompensador ver o resultado de tanto esforço e vê-los felizes por, enfim, terem conseguido concluir esta primeira etapa.

A partir de agora, o desafio é conquistar mais pessoas na comunidade para que possamos tornar real os demais canteiros previstos no mapeamento inicial. Dentre as ideias que já surgiram, está a realização de uma gincana, objetivando aproximar mais moradoras e moradores do trabalho da TETO, em especial a juventude da Che Guevara.

Conheça Zé Carlos e sua luta pela moradia

Por Cris Lima, voluntária do TETO

“Eu venho lutando pela vida e pela moradia digna, acabei no meio de tanta revolta sendo um revolucionário”. Essa foi uma das primeiras frases ditas por José Carlos de Assis, 56, reciclador. Ele, esposa e filhos construíram durante um final de semana, junto com o TETO, a nova casa da família na comunidade Esperança Vermelha. Entrevistar moradores que teriam casas construídas pela TETO era algo novo, e como tudo que é novidade está pretenso a erros, o cuidado teria que ser em dobro.

Já na manhã de sábado, antes das construções começarem e logo após nosso café-da-manhã, uma voluntária me aborda, aponta pro Seu Zé Carlos e diz “Esse vai ser o teu entrevistado mais difícil, questionador demais, acabou de perguntar por que eu tô aqui, nessa construção, o que me move e eu tô faz tanto tempo aqui que não soube responder”. Lembrei disso, pensei sobre e o fiz ser um dos últimos que entrevistaria, pois tive a impressão de que receberia um não logo de pronto e quis me preparar um pouco mais.

Sim, questionador é a palavra exata que define José Carlos e é por isso que o escolhi para ser o primeiro sobre o qual escrevo. Suas reflexões críticas me lembraram os motivos que me fizeram optar por jornalismo para minha formação. Não foi  à toa que em vários momentos tive vontade de chamá-lo de Professor ou Mestre e bater palmas cada vez que ele me fazia aprender um pouco mais. “Me diga, menina, pra que essa entrevista? Por que você tá fazendo isso? Isso vai parar aonde?” me pergunta Seu Zé Carlos, olhando em meus olhos, não de um jeito intimidador mas como alguém curioso, que precisa entender o porquê das coisas para ser motivado. Era um teste, e eu não podia desviar o olhar ou não ter certeza do que dizer. Por sorte ele pareceu gostar da resposta, sorriu e topou conversar.

Nesse final de semana da construção, os entrevistados se dividiram em duas categorias: que queriam ser ouvidos ou preferiam não dar entrevistas. Seu Zé Carlos deixou claro que sabia da importância de ter voz e de se fazer ouvido, o teste foi somente para ter certeza de que o ouvinte valeria a pena, porque tinha muito a contar. Sentamos em um banquinho, nos apresentamos, e logo moradores e vizinhos chegaram para conversar com ele. “Agora não, vou dar minha entrevista”, é o que responde de pronto para dispersar o público.

Zé Carlos construindo sua moradia junto dos voluntários/as

Seu Zé Carlos, além de questionador, é um senhor educado e doce, bem diferente do que minha imaginação distorcida havia criado. Estudou até a quinta série, teve que parar os estudos ainda criança para ajudar na renda da família. Foi criado somente pela mãe. Tem 11 filhos, 5 já adultos do primeiro casamento, já passou por vários empregos e hoje, como reciclador, não possui carteira assinada e ganha mais ou menos 1 salário mínimo por mês. Casado pela segunda vez, vive com sua esposa e 6 filhos. Desde que saiu da casa da mãe para se casar sempre morou em barraco de lona, logo dormir e acordar se preocupando se vai ou não chover virou uma realidade. “É aterrorizante. É um horror porque você tem suas crianças ali do seu lado, quando o vento vem e arranca tudo as crianças entram em estado de choque, a gente fica triste ao extremo, desgostoso, tem que ter muita força vinda de Deus pra poder superar essa situação”.

“A moradia é a base, daí como que eu vou ter uma moradia se eu não tenho um bom posto de saúde, um bom transporte, eu não tenho uma boa educação então tudo isso tá em conjunto com a habitação, com a moradia”.

Atento a tudo, participou ativamente da construção de sua nova e primeira casa. Botou a mão na massa em todo o processo da construção, conheceu todos os voluntários e quis acompanhar tudo. Foi difícil fazê-lo parar por um momento para conversarmos, sempre tinha alguém o solicitando. “Moradia é a base”, me diz assim que começamos, e logo depois emenda com a consciência de que o conceito de cidade para todos e moradia digna passa por muito mais, “a moradia é a base, daí como que eu vou ter uma moradia se eu não tenho um bom posto de saúde, um bom transporte, eu não tenho uma boa educação então tudo isso tá em conjunto com a habitação, com a moradia”.

Nascido e criado em território paulistano, Seu Zé Carlos enxerga São Paulo  como um lugar cheio de oportunidades mas subjugado por interesses políticos. Ele cita áreas de lazer como um exemplo e diz que é algo existente apenas em lugares mais nobres da cidade, “num lugar deles proporcionar um divertimento melhor, eles oprime os nossos jovens”. Sua reflexão sobre o que é morar na maior cidade do país também passa pela discriminação que sofre ao buscar vagas de emprego, pois sempre se considerou em grande desvantagem, “eu considero que o negro é uma pessoa que fosse fazer uma corrida e começasse 60 metros atrás, quem está 60 metros na frente vai ganhar a corrida então é assim que nós se encontra se você for avaliar a história”.

Comunidade Esperança Vermelha

Toda essa consciência político-social de Seu Zé Carlos veio também de seus 23 anos de luta em movimentos sociais, advinda do desejo de ter uma casa própria e da falta de oportunidades para tal sonho. Em grupo ele viu uma chance de se fazer ouvido e lutar pelo que é de fato um direito dele e de todo cidadão. Não foi um caminho fácil, vivemos em um país que criminaliza fortemente os movimentos sociais e, em mais, de duas décadas de luta, Seu Zé Carlos já viu e passou por muita coisa. “Já tomamos bomba de efeito moral, de gás lacrimogênio, já desmaiei…A gente se sente um guerreiro sendo combatido, porque tá lutando por direitos, pela moradia diante de uma política corrupta. É humilhante”, afirma.

Mas o tom de voz, ao falar das violências que já sofreu do Estado,  não é de tristeza, cansaço ou derrota. Seu Zé Carlos não baixa a cabeça, tem orgulho da própria luta e uma enorme sede de justiça, “se tiver de morrer lutando a gente vai fazer isso”. E foi essa garra de ir atrás do que é de direito que o levou juntamente com  os moradores da comunidade Esperança Vermelha a conseguirem uma casa emergencial dao TETO. Mas eles querem e podem muito mais e, atualmente, estão no processo de luta por um apartamento do Programa Minha Casa Minha Vida. Seu Zé Carlos me explicou como funciona toda a burocracia do Programa, como eles estão aptos a participar e demonstrou toda paciência para me explicar os números e cálculos feitos, e como estão fazendo para tornar isso uma realidade. É importante ser articulado, saber de seus direitos e ir atrás deles, me ensina Seu Zé Carlos.

Por fim, quando falamos sobre sonhos, Seu Zé Carlos responde que a casa emergencial da TETO já é uma parte de seus vários sonhos se realizando. Explica que agora terá mais tempo para procurar um emprego melhor porque quando chover não vai se preocupar se a casa vai ou não cair e me diz que a proteção contra a chuva já está fazendo com que seus filhos estejam muito felizes.

A inauguração da casa nova

Mas e se a casa da TETO é só uma parte, quais são os outros? “Eu quero ver meus filhos criados, ter uma casa mobiliada, uma casa digna, apartamento com playground, um carro na garagem, que é o mínimo, e um salário digno todo mês com um emprego. A sensação que às vezes a gente sente é que a gente tá pedindo demais e não, não é”, responde.